domingo, 4 de outubro de 2009

Gavião não gosta de vermelho!


Este fato aconteceu no hotel de Búzios, onde fui gerente geral.
Um dos grandes problemas de trabalhar em hotéis que têm um único proprietário é ter que receber todos os parentes do proprietário com tarifa ZERO. Depois o dono fica reclamando que a diária média está baixa mesmo tendo uma taxa de ocupação alta. Craro, né Cróvis! Basta prestar atenção nas aulas de hotelaria que você descobre que quanto mais hóspedes com tarifa ZERO maior é a taxa de ocupação e menor é a diária média... humpf!

Mas então... um belo sábado recebemos a irmã do proprietário com seu digníssimo esposo. Ficaram hospedados num chalé próximo a um dos cajueiros do hotel. Neste cajueiro morava um gavião muito bonito. Tínhamos muito orgulho do bicho, pois apesar do barulho e da rotatividade de pessoas, ele fez seu ninho no cajueiro e tinha lá seus filhotes.

Ao chegar ao seu chalé, a Dona Fulana estava de chapéu, óculos escuros (daqueles que cobrem a testa e as bochechas) com muitas jóias, muitas plásticas e muito botóx. Entrou no chalé, trocou-se e, com biquini de grife e canga de artista plástico, saiu rumo à piscina, onde seu marido estava e já havia tomado umas duas garrafas de uísque.

Ao sair do chalé, com seus óculos Chanel e com o chapéu na mão, a Dona Fulana nem conseguiu chegar ao meio do gramado, pois o gavião, ao ver aquela farta cabeleira vermelha, tão vermelha de causar inveja ao próprio Curupira, saiu do seu ninho piando alto e deu um vôo rasante na peruca da perua. A mulher ao se sentir perseguida, saiu correndo com a águia atrás. Chegando ao restaurante, Dona Fulana estava com os cabelos desgrenhados e alguns ferimentos na testa e no couro cabeludo, resultado das garras do gavião na sua cabeça.

A governanta pegou o kit de primeiros socorros e limpou as marcas de sangue e os ferimentos da digníssima senhora. Nada grave, só alguns arranhões que nem marca deixaram.

Seu marido, com sua pança enorme, ficou na piscina, ignorando o acidente de sua esposa. Dona Fulana colocou seu chapéu e saiu para a piscina, depois de um grande copo de suco de maracujá e algumas pílulas de calmante. Mas saiu na maciota, olhando para todos os lados e esgueirando-se pelas espreguiçadeiras.

O dia transcorreu perfeito, muito sol, muita diversão e muitas futilidades com suas amigas... a perua esqueceu o ocorrido.

No fim do dia, Dona Fulana decidiu voltar ao seu chalé, novamente sem chapéu. Devia estar meio grogue pelo efeito dos calmantes, do suco de maracujá e dos diversos Dry Martini consumidos à beira da piscina.

Novamente, ao chegar no meio do gramado, lá veio o gavião em seu vôo rasante, com as garras direto na peruca de Curupira da perua. A coitada correu tanto e tão rápido, que chegando ao seu chalé entrou voando e foi direto ao banheiro onde fechou a porta. Incrível foi o gavião entrar no chalé e ficar voando pelos cômodos procurando sua vítima. Vocês acham que alguém teve coragem de entrar no chalé para tirar o bicho? É ruim, hein!

Depois que o gavião desistiu, um rapaz da manutenção do hotel entrou e avisou a madame que já estava tudo bem. Nesta noite a perua ficou trancada no chalé e pediu seu jantar pelo room service.

No dia seguinte a perua estava escolada: enrolou um lenço na cabeça, ligou para a recepção do hotel e pediu que alguém fosse buscá-la no chalé com um guarda-sol. Tudo deu certo. Sorte nossa que já era domingo e todos iriam embora no fim do dia. Nenhum outro acidente foi registrado, mas o modelito da perua parecia mais um turbante o Ilê Aiê do que um singelo e barato lenço florido amarrado na cabeça.

Este foi o único incidente com o gavião no hotel. Depois disto a perua ficou um bom tempo sem aparecer, assim como seu marido e outros parentes. Foi um período tranquilo, sem cortesias de casa, comida e roupa lavada... e com nossos estoques de uísque sempre em dia.

Depois fui transferido para Maceió.

Cuidado mulheres: a cor vermelha não irrita só os touros não! Pensem bem antes de tingirem seus cabelos!

segunda-feira, 30 de março de 2009

Calma, Seu Jean Pierre... assim não!


Todas as camareiras sabem que, em caso de estupro, relaxem e usem o joelho... para bom entendedor meia frase basta!

Mas a camareira deste fato não precisou usar o joelho.

Jean Pierre hospedou-se no hotel aqui em São Paulo como mensalista, pretendendo passar cerca de três meses na cidade, fazendo a divulgação dos produtos alimentícios da empresa. Tratava-se de um senhor com um biotipo eclético: devia ter DNA de gnomo (tinha mais ou menos um metro e meio), ouriço (cabelos espetados), peixe telescópio (olhos esbugalhados, saltados para fora) e falava francês... somente francês.

A camareira, Célia, era uma senhora de origem nordestina, muito ética, muito responsável e extremamente auto-confiante. Era engraçada e muito divertida. A melhor e mais experiente camareira do hotel.

Um belo dia Célia foi fazer a limpeza do apartamento de Jean Pierre. Bateu à porta e o francês fez sinal para que entrasse. Célia começou a limpeza seguindo o padrâo: retirar todo o lixo e roupas sujas (lençóis, toalhas, fronhas, etc), limpar o apartamento inteiro e depois arrumar tudo. Enquanto isto, Jean Pierre ficou num canto, tentando não atrapalhar.

Quando Célia foi arrumar a cama, Jean Pierre aproximou-se e "abraçou-a" por trás, levando as mãos de gnomo diretamente aos peitos da camareira. Sentindo o clima esquentar, Célia disse manhosa:

- Calma, Seu Jean Pierre... assim não...

Virou-se de frente para o gnomo sorridente e de olhos esbugalhados e, com a mão direita, agarrou-o pelos colarinhos, quase levantando-o do chão, jogou-o em cima da cama e, apontando-lhe o dedo indicador na cara, disse:

- O se-nhor nun-ca mais fa-ça is-to! Disse assim mesmo, pausadamente, para se fazer entendida.

O gnomo quase teve um treco, afinal Célia era muito mais alta que ele (aliás TODOS no hotel eram muito mais altos que ele) e tinha compleição forte, carnuda. Levantou-se da cama tremendo e saiu do apartamento. Célia continuou seu trabalho como se nada tivesse acontecido.

O gnomo foi direto à sala da gerente geral. Falando francês muito rápido, mal conseguia se expressar, bufando, babando, gaguejando, cheio de trejeitos e biquinhos. A Gerente Geral não falava francês, então chamou a sub gerente, que por sua vez chamou-me para ajudar na comunicação. Tentávamos traduzir o gnomo e entender o que havia acontecido, mas ele só dizia que a camareira o havia agredido e que exigia que ela fosse demitida. Ao ser questionado do porquê da agressão, ele disse que ao passar entre a cama e a camareira, havia tocado de leve no seu corpo acidentalmente, inocentemente. Isso foi motivo? Qual é... esta camareira é louca!

Traduzíamos as palavras do francês e a gerente nem tinha tempo de falar, pois o gnomo estava totalmente alterado, injustiçado, agredido e com seu orgulho ferido... quase com lágrimas nos olhos azuis esbugalhados.

De repente a gerente geral fechou a cara, aproximou-se do francês e com o dedo indicador em riste disse:

- Vou falar em bom português: o senhor suba, arrume suas malas e FORA DAQUI! JÁ!

O gnomo pareceu entender a ordem e, com alguns pequenos passos para trás, foi se encolhendo, fazendo biquinho, sobrancelhas de Capitu (olhos oblíquos e dissimulados) e foi saindo da sala pedindo pardon, pardon, pardon...

A Gerente Geral ligou para a governança e pediu para falar com a camareira do andar. Célia desceu e contou o que havia ocorrido. Jean Pierre subiu, arrumou as malas, passou pela recepção, pagou suas contas e foi-se... para todo lo siempre...

Meses depois a governanta do hotel formou-se na faculdade e voltou na segunda-feira cheia de novidades. O baile de formatura havia sido um sucesso... a banda foi perfeita... E PASMEM: o gnomo tocava na banda e, durante uma música e outra contava piadas ao público... EM BOM PORTUGUÊS! O maldito gnomo falava até gírias... e no hotel só falava francês, né? Safado, ordinário.

Camareiras, sigam o exemplo da Célia mas façam melhor: ao receber um abraço de um hóspede por trás, faça manha, vire-se de frente, faça um carinho no rosto do safado e levante o joelho com violência no meio das pernas do tarado. Isto lhe dará tempo para correr e se livrar do possível estupro. Mas se rolar um clima legal, marque algo fora do hotel, pois lembre-se que o seu tempo dentro do apartamento é cronometrado... não perca seu emprego por uma aventura. O hotel sempre estará ao seu lado em caso de tentativa de abuso sexual.