quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Já está aberta?


Antes de começar a contar esta história, gostaria de alertar para o fato de que a foto acima foi tirada com o único objetivo de ilustrar a página. Era a única moeda européia que tinha em mãos (como comprova a foto), e como a história é sobre um europeu...

Bem, o fato ocorreu no hotel em Salvador, aquele mesmo da "Mulher do 18".

Recebemos um grupo de turistas europeus. Não vou dizer o país para não criar constrangimentos . Fizemos a recepção do grupo da mesma maneira que fazíamos habitualmente, com uma mesa colocada no lobby, um recepcionista para conferir os nomes dos hóspedes no rooming list, entregar o envelope contendo a chave do apartamento e o cartão de identificação, receber as FNRHs preenchidas e assinadas e, caso o hóspede quisesse, entregar os trancões de cofre e colher a respectiva assinatura de anuência aos termos de adesão de uso do cofre.

O check in foi feito com muita tranquilidade. Todos os hóspedes subiram para os quartos e passamos a inserir os dados no sistema.

Depois de cerca de cinco minutos, um dos hóspedes do grupo desceu à recepção e, com o envelope nas mãos, disse à recepcionista:

- A senhorita esqueceu-se de dar-me a chave da porta!

Ao ler as falas do hóspede, peço que puxe da memória um sotaque de qualquer país europeu e apliquem à leitura. Mas escolha o primeiro sotaque que vier a sua mente, certo? Assim fica mais interessante.

A recepcionista, com um leve e gentil sorriso, respondeu ao hóspede:

- A chave do apartamento está dentro do envelope, senhor, junto com o cartão de identificação.

O hóspede abriu o envelope e de lá retirou a chave do apartamento e o cartão de identificação:

- Estás a ver, senhorita? A senhorita deu-me apenas o cartão de identificação e um outro papelito. Cá não está a chave do apartamento, ó pá!

Acontece que a chave dos apartamentos do hotel eram chaves magnéticas, que deveriam ser inseridas numa fenda da maçaneta. Ao apertar levemente a chave contra a maçaneta, a porta se abriria. Tratava-se de um cartão metálico num chaveiro.

A recepcionista, educadamente, informou ao hóspede que a chave do apartamento era justamente o que ele pensava ser o cartão de identificação, e que o tal "papelito" era o cartão de identificação, que deveria ser assinado por ele e apresentado em qualquer lugar do hotel para que pudesse debitar suas despesas na conta do seu apartamento.

O hóspede, um pouco irritado, disse à recepcionista:

- Estás a chamar-me de burro? Acaso não sei o que é uma chave?

- De forma alguma, senhor - disse a recepcionista com a tradicional "paciência de Jó" que todos os recepcionistas de hotel do mundo devem ter. Ao terminar a frase, abaixou-se e pegou um apetrecho debaixo do balcão para demonstrar a abertura da porta. Tratava-se de um pedaço de madeira de cerca de 30 cm de altura, com uma maçaneta de verdade, exatamente igual àquela dos apartamentos. Colocou o apetrecho sobre o balcão da recepção, pegou a chave das mãos do hóspede e inseriu na fenda da maçaneta, demonstrando como deveria ser feito da forma correta, dizendo:

- O senhor pega a chave, coloca nesta fenda da maçaneta, pressiona levemente e pronto: está aberta!

- Está aberta? Posso subir?

Não entendendo muito bem o ocorrido, a recepcionista fez menção de entregar a chave de volta ao hóspede, mas este já estava indo em direção aos elevadores.

- Senhor, senhor... a chave do seu apartamento!

O hóspede apenas olhou para trás e disse:

- Já está aberta, e não posso subir?

- Não, senhor! O senhor deve usar a sua chave na maçaneta da sua porta para abri-la.

Contrariado o hóspede voltou e pegou a chave da mão da recepcionista.

- Mas a senhorita me disse que já estava aberta. Agora me diz que eu tenho que abrir a porta?

- Pois é, senhor... - não houve tempo de terminar a frase, pois o hóspede já estava correndo em direção aos elevadores.

Sabemos que numa comunicação entre estrangeiros, de países diferentes, podem surgir frases imcompreensíveis, mas o estrangeiro em questão falava português, fluentemente, diga-se de passagem. Talvez ele não tenha interpretado bem as falas da recepcionista... sei lá!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

É tudo meu!

Mortes acontecem em todos os lugares, inclusive em hotéis. Posso afirmar, na minha limitada sabedoria que: “onde há gente viva existe a possibilidade de alguém morrer de repente”.

No flat onde trabalhei em São Paulo moravam várias pessoas como mensalistas do pool hoteleiro e como inquilinos de apartamentos do condomínio. É óbvio que a variedade de profissões era um pouco grande: algumas garotas de programa, profissionais liberais, “teúdas e manteúdas” gente metida à rica mas que sempre atrasava os aluguéis, etc.

Dentre os moradores havia um argentino, sempre muito bem vestido, sempre muito fino, sempre muito galante e sempre muito metido a milionário. Pão-duro, pois não me recordo de ter dado um centavo de gorjeta a quem quer que fosse. Lembro-me que sempre, aos sábados, descia de calça social branca, camisa sempre muito estampada e colorida – de seda, paletó branco com um brasão bordado do lado esquerdo, sapatos brancos e um único taco de golfe: ia jogar golfe. Mas depois descobri que um golfista deve ter uma taqueira completa, com vários tipos de taco, para as mais infinitas possibilidades que se apresentam num jogo. Coitado: aliás, divagando aqui no teclado, coitado pode ser aquele que sofreu, de forma passiva, um coito? Mas então: coitado! Talvez enganasse os recepcionistas ignorantes em matéria de golfe, mas com certeza não enganava a todos.

Vou chamá-lo de Sr. Hadad.

O Sr. Hadad morava no 14º andar como mensalista do pool hoteleiro, e sempre pagou suas contas em dia. Corria entre os funcionários que o Sr. Hadad tinha uma loja de compra de ouro e jóias na região central da cidade de São Paulo. Quem mora em São Paulo conhece muito mais os pobres aposentados que ficam sentados em banquinhos nas ruas e calçadas do centro da cidade, segurando uma placa com os dizeres: Compro ouro - ou algo parecido.

A camareira que limpava o apartamento do Sr. Hadad era uma mocinha agitada, muito engraçada, morena, bonita. Vou chamá-la de Ivonete. Estava sempre rindo e não me recordo de tê-la visto um único dia de mau humor. Exceto depois do caso que passo a relatar.

Um belo dia o Sr. Hadad foi assassinado dentro do seu escritório, na região central de São Paulo. Não se sabe a causa do assassinato, mas sabe-se, pelos jornais da época, que não foi assalto. A comoção no flat foi geral, pois de certa forma todos gostavam do Sr. Hadad. Quem mais se descontrolou foi a camareira Ivonete, que não parava de chorar e soluçar pelos corredores do hotel.

No dia seguinte as camareiras não queriam nem pensar na possibilidade de limpar os apartamentos do 14º andar, nem a Ivonete. Algumas que tentaram desceram correndo, desesperadas, alegando terem isto o Sr. Hadad no andar – não acredito!

Ivonete, depois de dois dias da morte do Sr. Hadad, começou a dizer que tudo o que tinha dentro do cofre do apartamento lhe pertencia, pois o Sr. Hadad sempre lhe falava:

- Netinha, quando eu morrer tudo o que estiver dentro do cofre é seu!

Ivonete tinha certeza que ia tirar o pé da lama, até parou de chorar e passou a ter os olhos mais brilhantes, mais vivos e mais alegres.

Mas alguns procedimentos deveriam ser tomados. Na semana seguinte à morte do Sr. Hadad, sua filha, que morava no litoral de São Paulo, chegou ao hotel para retirar todos os pertences do pai. Imaginem como ficou a Ivonete? Correndo desesperada de lá para cá, dizendo que tudo o que tinha no cofre lhe pertencia, que a filha do Sr. Hadad não poderia abrir o cofre, que ia chamar a polícia, etc, etc, etc... Mas a Gerente Geral não poderia permitir, já que o pobre homem não havia deixado testamento.

Apesar de todos os conselhos da governanta, Ivonete subiu ao apartamento do Sr. Hadad para certificar-se de que o cofre não seria aberto. Como poderia ser aberto se o Sr. Hadad carregava a chave consigo o tempo todo? Mas cadê a chave do cofre?

A Gerente Geral conversava com a filha do Sr. Hadad no apartamento, e esta dizia:

- Meu pai não nos deixou nada. O cofre do escritório só tinha papéis. O apartamento do Guarujá foi financiado, no nome da minha mãe, e ele pagava as prestações mensalmente. Nem a quitação do apartamento será possível; temos que continuar pagando as prestações.

Imagine os olhos da Netinha ao escutar isto. Logo imaginou: está tudo no cofre e é tudo meu!

A Gerente Geral pediu então que Netinha saísse do apartamento. Muito contrariada, mas com os olhos brilhando, Netinha desceu.

Enquanto isso, a Gerente Geral e a filha do Sr. Hadad abriram o cofre do apartamento, já que a chave do cofre foi deixada dentro da gaveta do escritório, e sua filha tinha todos os documentos legais para proceder a posse de todos os possíveis bens, como herdeira legal.

Netinha, lá embaixo, imaginava que a chave do cofre não existia...

Logo depois a Gerente Geral e a filha do Sr. Hadad desceram. Se despediram na recepção do hotel e seguiram cada qual o seu caminho.

Imediatamente Netinha foi à sala da Gerente Geral obter mais informações: e o cofre?

- O cofre estava vazio. Lá estavam apenas o passaporte do Sr. Hadad, documentos pessoais, os documentos do financiamento do apartamento do Guarujá, os recibos de quitação das prestações e mais alguns papéis sem valor.

- Mas e o ouro, os dólares, as jóias? perguntou Netinha.

- Que ouro, Netinha, que ouro? O Sr. Hadad não tinha nada. Estava todo envolvido com agiotas, cheio de dívidas. Que ouro, Netinha? Que dólares? Que jóias?

Netinha, desconsolada e muito desconfiada, caiu em prantos e chorou por mais umas duas semanas. Mas nada tirava da sua cabeça que havia sido enganada: roubaram todo o seu ouro. Repetiu esta história por dias, meses:

- É tudo meu, ele deixou pra mim, prá mim, entendeu?

O Sr. Hadad descansou em paz (será?). Seu fantasma deixou de aparecer no 14º andar – pelo menos as camareiras esqueceram o caso... exceto a Netinha, que deve ainda pensar que foi roubada. Não sabemos a verdade, mas é melhor que tenha sido conforme a Gerente Geral relatou.

Netinha continuou trabalhando no flat por muito tempo ainda. Depois de uns quatro anos, perdi contato com a maioria, mas acredito e torço para que todos estejam muito bem. Deus lhes proteja.